Como educadores, lancemos boas sementes...

.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

A culpa não é minha

Assistindo a TV ontem, deparei-me com a notícia de que os donos da boate KISS, no Rio Grande do Sul, serão julgados. Pra quem não se lembra, a boate pegou fogo e matou muitos jovens que não conseguiram sair do recinto. Uns morreram asfixiados, outros queimados. Por causa da comoção nacional, todo mundo clama por justiça.

Esta avidez na busca por culpados acabou me fazendo refletir: somos assim mesmo. Temos sempre a tendência de expiar as culpas em alguém:
os bombeiros são os culpados, não, são os músicos da banda, não, são os donos da casa noturna, não, são os jovens que não tinham que estar lá, não, são os pais que não deviam tê-los deixado ir, não, é a prefeitura que não investe em leis mais severas e não fez a fiscalização.

E as mortes posteriores dos sobreviventes são culpa da falta de estrutura da saúde, do governo, etc....
Não pensem que estou defendendo a impunidade. Penso que deve haver apuração, punição severa e aprendizado, para evitar tragédias futuras.
Eu apenas me lembro de várias situações cotidianas nas quais preferimos debitar na conta do outro as nossas próprias responsabilidades:

O casamento não vai bem porque meu marido é muito difícil.
Minha esposa reclama de tudo, por isso não vivemos bem.
Meu filho está naquela fase rebelde, por isso o clima lá em casa é de tanta desarmonia.
Minha mãe não larga do meu pé, não aguento mais as cobranças, por isso eu a trato com tanta agressividade.
Meus alunos são terríveis, por isso não dou boas aulas.
Meus amigos não me ligam, não me dão valor, por isso eu sou tão triste assim.
São tantos os culpados pelas nossas insatisfações e ações, que a lista chega a não ter fim.

E agora que você leu isto, você ficou preocupado se por acaso está transferindo suas culpas a alguém que não seja você mesmo.


E a culpa disto é minha. Quem mandou eu escrever este artigo?

terça-feira, 26 de julho de 2016

Ler: prazer ou obrigação?

A escola é a principal e, às vezes, única fonte de leitura para os alunos. Não se justifica, porém, a forma como ela vem sendo encaminhada em muitas escolas. 

Fonte de informação e prazer, encantamento e emoção, a literatura deve ocupar um espaço de real importância na vida da criança, merecendo, assim, um tratamento especial em sala de aula.

Ler, antes de qualquer coisa, deve ser PRAZER. O indivíduo deve ver os livros como uma forma de identificação com seus sentimentos e opiniões, fonte de informação, como uma forma de se comunicar, de fazer uma INTERLOCUÇÃO com o autor. 

Se damos livros aos alunos para que leiam, de forma corrida, sem conversar previamente sobre o assunto, sem promover debates e reflexões, sem ouvir o que pensaram, o que sentiram, a literatura não servirá para nada além de fixar ortografia, ensinar sinais de pontuação, ampliar o vocabulário ou aferir a capacidade de interpretação, mediante algumas perguntas dirigidas e mecânicas sobre o texto. 

E o pior: ler, na maioria das escolas, vale nota! A criança lê para não ser penalizada, lê por obrigação, não escolhe as obras, os estilos. Lê para produzir um resultado final.

Não é desta maneira que se forma leitores!

Guimarães Rosa nos ensinou que a beleza da vida está na travessia e não somente na chegada. Nós, adultos, imediatistas que somos, “não pensamos na beleza da travessia, mas no momento da chegada."

Falar de travessia é falar em meio de atravessar e a mediação do professor é fundamental para aquisição de mais este conhecimento sobre o mundo: o prazer também é aprendido. 

Se a leitura não for prazer, não formaremos leitores e sim alunos aplicados e obedientes que, ao saírem da escola, a primeira coisa da qual querem se livrar é dos livros. 

Acabada a escolarização, eles já não servem mais.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Filhos com necessidades especiais, pais com atitudes especiais

Filhos com necessidades especiais, pais com atitudes especiais

Por Priscila Pereira Boy*
O nascimento de um filho mexe com a gente. Muitas vezes, vai mexer na estrutura familiar e na organização da casa. Ter uma criança com necessidades especiais não é uma situação simples, tampouco confortável.

O primeiro desafio é lidar com a frustração. Quando uma criança nasce, os pais costumam depositar várias expectativas sobre seus filhos com o intuito, na maioria das vezes inconsciente, de diminuir suas próprias frustrações do passado. Um filho é uma extensão de nós mesmos.

Outro desafio é lidar com as cobranças e os preconceitos das outras pessoas. Uma criança com necessidades especiais, como qualquer outra, deve ser protagonista de sua própria história.

Como pais e profissionais, devemos evitar superprotegê-la, poupá-la, subestimá-la. A criança com necessidades especiais deve ser vista essencialmente como CRIANÇA e, portanto, como PESSOA. Desde o início, deverá ser consciente de que tem limitações, dificuldades, diferenças, como, na verdade, todos temos. E, ao mesmo tempo, ser levada a ver tudo o que tem de bom, seus talentos e habilidades.

É importante saber comportar-se em sociedade. Distinguir o certo e o errado, cumprimentar as pessoas, agradecer e pedir licença. São aspectos importantes a serem estimulados e ensinados.

Executar ações pela criança pode parecer a você uma demonstração de carinho, mas é também um modo de atrasar o percurso que a leva à autonomia. Deixe que seu filho realize pequenas tarefas. Pode levar mais tempo e ter resultados não tão perfeitos, mas é através da experiência que aprendemos. É percebendo que sapatos trocados incomodam que a criança verá a necessidade de calçá-los corretamente na próxima vez.

A criança com necessidades especiais geralmente tem uma agenda lotada de compromissos educativos e terapêuticos. Poder dispor do próprio tempo e desenvolver atividades que proporcionem prazer e respeitem suas habilidades (nem toda criança se identifica com a água; o ballet que encantou uma, pode não ser prazeroso para a outra) é fundamental para a criança.
Isso é importante para que ela não se sinta sobrecarregada e desrespeitada em suas preferências. Resolver por ela, o que ela vai vestir, o que vai comer, que filme vai assistir, também não é uma boa opção.

Geralmente impomos à criança aquilo que achamos melhor para ela. Se lhe dermos a possibilidade de escolha (queijo ou geléia, bermuda ou calça, Peter Pan ou Mogli), estaremos fazendo com que analise, raciocine, compare e decida ao invés de receber tudo pronto. E, acima de tudo, estaremos dando a ela o direito de ter gostos e preferências, bem como construindo um indivíduo que saberá aceitar ou não o que lhe for oferecido, que saberá que tem a possibilidade de decidir o que é melhor para si mesmo. Porque não somos eternos. Um dia os pais irão embora e a criança deve construir uma vida autônoma para que possa dar continuidade a sua existência, mesmo sem a presença dos pais.

Ações para promover a independência da criança são fundamentais: aprender a ler, pegar um ônibus sozinho, consultar coisas na internet, usar o telefone e administrar seu próprio dinheiro. Coisas que para as crianças ditas “normais” são naturais ao longo do tempo, mas que para as crianças como necessidades especais pode levar mais tempo.

O maior bem que podemos fazer a uma criança com necessidades especiais é aceitá-la como ela é, pois desta forma, ela se tornará uma criança feliz!


*Priscila Pereira Boy é pedagoga, Mestre em Ciência da educação, escritora e Consultora educacional. Atualmente é apresentadora do canal “Familias Conectadas” no youtube.