Como educadores, lancemos boas sementes...

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terça-feira, 22 de março de 2016

Entrevista ao Jornal O Popular, de Goiânia: Como escolher a escola dos seus filhos?

Compartilho com vocês entrevista concedida ao jornal O Popular de Goiânia, sobre os critérios que os pais devem usar para escolher a escola dos seus filhos. Nela, ressalto os pontos importantes da escola e dos critérios da família.


- Qual a principal dificuldade dos pais no momento de escolher a escola dos filhos?

Encontrar uma escola "ideal" é o sonho de todo mundo. Infelizmente, nem todos a encontram.Muitas vezes os pais encontram a escola que gostariam, mas não podem pagar por ela. Outras vezes, a escola que cabe no orçamento, não tem todos os atributos que eles gostariam que ela tivesse. Ainda podemos citar o fato de os pais não dominarem as questões acadêmicas. A tendência dos pais é buscar uma escola próxima ao modelo de educação no qual eles foram educados. O que eles conhecem sobre escola é o que vivenciaram no passado. No século XXi, nós podemos identificar muitas mudanças nos paradigmas educacionais. as vezes é complicado para os pais acompanhar estas mudanças.


- É importante que eles analisem as linhas pedagógicas que a escola segue (tradicional, construtivista e outras)?
A linha pedagógica adotada pela escola mostra os valores que ela tem, a sua cara, o que será cobrado dos alunos e das famílias e principalmente como será cobrado. Pais que primam por uma educação mais rígida, devem colocar seus filhos em escolas de linha tradicional. Pais que buscam uma educação mais voltada para a autonomia, devem buscar uma escola de linha construtivista. A proposta pedagógica da escola vai sinalizar aos pais o tipo de comportamento que se espera dos filhos e da família também.



- Antes de escolher a escola, os pais devem também se questionar sobre alguns posicionamentos, conceitos próprios, como por exemplo, se a família tem um perfil mais conservador ou liberal? Enfim, uma auto-análise é importante nessa situação?
Com certeza! Quanto mais clareza os pais tiverem sobre seus valores e sua moral, mais acertaraão na escolha da escola "ideal" para sua criança. Uma família que não crê em Deus, por exemplo, pode ter muito mais aborrecimentos ao colocar sua criança em uma escola confessional, onde será assumidamente disseminado valores cristãos. O contrário também seria bem desastroso. Quanto mais afinados estiverem os valores da instituição com os valores da família, melhor será esta relação no futuro.



- De que maneira os pais podem se sentir tranquilos quanto ao modo como a escola se preocupa com questões como ética, diversidade étnica, opção sexual, pessoas com necessidades especiais? 
É importante que os pais questionem abertamente a direção da escola ao serem atendidos, no momento em que vão conhecer a escola. Desconfie de respostas evasivas, que não se posicionam claramente. Se uma escola diz que é inclusiva, por exemplo, peça para que o atendente relate algum caso concreto de inclusão, ou cite a que tipo de necessidade especial aquela escola está atendendo naquele ano. Preste atenção nos espaços escolares, se possibilitam acessibilidade e mobilidade. 
 A transparência  é um ótimo indício de trabalho ético e preocupado com a formação dos valores essenciais.

- Como as escolas e os pais devem trabalhar a questão da autoridade? É melhor que a escola siga o modo como os pais encaram essa questão? Por exemplo, sobre o grau de autonomia para a criança tomar decisões, ou se ela é ouvida em decisões familiares.



Conforme já comentamos em uma pergunta anterior, os pais devem procurar uma escola que esteja afinada com os seus valores e crenças. A escola tem sua forma de se posicionar quanto as questões ligadas a hierarquia e autoridade. As famílias, por sua vez, também tem suas convicções. Havendo "choque" entre as posturas e pensamentos, o ideal é tentar negociar e dialogar. Caso não haja entendimento é melhor mudar de escola ou se submeter.


- Alguns pais podem se prender a apenas analisar os resultados do Enem para escolar uma escola para o filho. Esse corre o risco de fazer uma análise superficial? Por que?



O resultado do ENEM é um indicador de aprendizagem. Bons resultados indicam que houve um bom trabalho e principalmente , que houve uma boa aprendizagem. Mas, não garante que houve um bom trabalho também  nas outras áreas do desenvolvimento humano, como por exemplo, valores essenciais, meio ambiente, cidadania, etc. 
Pode ser que uma escola que tem bons índices no ENEM e até em alguns vestibulares, seja uma escola onde se fomenta muito a competição entre os alunos, onde se exclui aqueles que não são " brilhantes", onde a auto estima do aluno é destruída porque ele não alcançou boas notas. É importante olhar os índices do ENEM sim, porém o ideal é olhar o conjunto de ações da Instituição e não somente os números.



- Hoje o objetivo de um estudante é se preparar para passar no vestibular. Muitas escolas oferecem isso como o principal atrativo, deixando de lado um pouco a formação do cidadão. Qual sua opinião sobre isso?
Eu não vou dizer que uma educação de qualidade não é aquela que pensa no mercado de trabalho ou na continuidade dos estudos, como o ingresso na universidade, por exemplo. Sou mãe de duas lindas crianças e quero que elas sejam bem sucedidas e isto inclui um bom emprego e uma boa universidade. 
Porém, eu penso que as escolas tem que preparar os alunos para enfrentar todos os desafios da vida. Isto inclui um trabalho voltado para a parte cognitiva, mas também a afetiva, social, ambiental, etc. Só se dará bem no futuro a pessoa que se preocupar em articular conhecimento, relações interpessoais, comportamento ético e preocupação com meio ambiente.



- E a formação dos professores? Os pais também devem se atentar a isso? Até mesmo se a escola dá condições de capacitação continua de seus profissionais? Isso é possível, existe tanto em instituições privadas ou públicas?
Uma escola que não investe na formação constante de seus professores, não está comprometida com a qualidade do ensino. Em um mundo em constante transformação, onde as verdades científicas mudam com muita velocidade, é fundamental que os professores estudem e repensem constantemente suas práticas.
A formação continuada dos professores é fundamental, na rede pública quanto particular. Hoje em dia, há muitas políticas públicas focadas tanto na formação continuada quanto na formação inicial. O Brasil é um país muito grande e ainda há locais onde os professores não tem nenhum tipo de graduação. O ensino a distância tem alcaçado muita gente.  As novas tecnologias podem ajudar também nos programas de formação. 
O que o professor não pode deixar de fazer é estudar constantemente.

domingo, 20 de março de 2016

Outono: tempo de deixar ir.

Entramos no outono. Cada estação do ano tem suas características bem específicas. O outono é a estação dos ventos fortes e das folhas que caem. É a vida que se renova.
Mudanças nos convidam a novas posturas e nos oferecem uma série de aprendizados para a vida.
O outono é uma época de transição entre os extremos de temperatura verão-inverno.

Qual é a principal imagem que lhe vem à mente quando pensa em outono?
É bastante provável que a maioria das pessoas responda a essa pergunta lembrando da clássica imagem das árvores perdendo suas folhas.
Mas você sabe por que acontece essa perda? Se as árvores não as deixassem ir, não sobreviveriam à próxima estação. As folhas se queimariam com o frio do inverno e, assim, os ciclos de respiração da árvore se findariam bruscamente, o que resultaria no fim da vida.

Embora seja a estação das folhas que caem, o outono é também o momento que a vida se renova. A Bíblia diz: "Depois da tempestade vem a bonança".
O que a princípio pode parecer uma perda é na verdade um ganho: a árvore ganha mais tempo de vida, e chega renovada às próximas estações.

Talvez seja chegado o momento de tomar consciência e assumir uma atitude de compromisso consigo, desapegando-se daquilo que não lhe serve mais. Deixe as folhas caírem...
Não é simples, nem fácil, mas também não é impossível. Como tudo na natureza, nossos processos de mudança carecem de tempo para se instalarem.

O outono é também estação de amadurecimento dos frutos.
Tempo para ir amadurecendo, até que seja o momento da colheita.
Reflita sobre os pesos desnecessários que podem estar atrasando seu caminhar, vá se desapegando e deixando ir.
Acredite que vale a pena se libertar para deixar nascer um novo tempo

terça-feira, 15 de março de 2016

Para Casa na Educação Infantil?


Muitas professoras se queixam comigo sobre o alto número de alunos que não faz o para casa ou que traz o caderno onde nitidamente se vê que quem fez o dever não foi a criança e sim sua mãe.
O fato é que os “Para Casa” que damos às crianças costumam deixar as famílias totalmente mobilizadas! Muitas vezes, nos excedemos na quantidade e na complexidade das tarefas.

O primeiro questionamento que faço é: Será mesmo necessário dar atividades de casa para crianças da educação infantil? Um dos argumentos que ouço é de que a criança precisa de ter um tempo em casa para rever os conteúdos a fim de sistematiza-los. Quando acreditávamos que a educação se dava por meio da memorização, da fixação e do adestramento, muito bem representado pelo condicionamento clássico operante, de Pavlov, realmente se justificava treinar os alunos, condicioná-los, para que alcançassem bons resultados futuros.

Porém hoje, com os estudos psicogenéticos, com a neurociência, temos prova de que as crianças aprendem  por meio de construções internas e que tem fases de desenvolvimento nas quais podemos constatar algumas características distintas umas das outras. Diante disto, percebemos que não é produtivo forçar as crianças antecipadamente a alguns tipos de comportamento ou execução de atividades. 

Há outro fator muito importante a ser considerado, que é a importância do brincar para a representação do mundo adulto por parte da criança. Vigotsky nos relata muito bem que a criança fantasia porque tenta desesperadamente entender o mundo. Quando enchemos as crianças de atividades, para prepará-las para o ano seguinte, tiramos delas a oportunidade do brincar, ação FUNDAMENTAL para o desenvolvimento do indivíduo na infância.

Na verdade, para crianças pequenas, o Para Casa serve mesmo é para desenvolver duas coisas: autonomia e responsabilidade.

Chegar em casa, tirar o caderno, fazer as atividades e depois recolocar os materiais na mochila, faz com que a criança compreenda que a vida acadêmica requer um certo ritmo. Quando ela estiver mais velha, não terá dificuldade para cumprir prazos ou entregar seus trabalhos em dia.
Ao realizar as atividades propostas, ela vai ganhando auto confiança, e marcando um ritmo de estudo. Se damos atividades que as crianças não conseguem desenvolver sozinhas, necessitando sempre da ajuda de um adulto, estamos perdendo esta possibilidade, de exercitar a construção da autonomia. Muitas vezes pedimos coisas que fazem com que os pais fiquem furiosos, porque a família hoje anda muito sem tempo para certas coisas muito trabalhosas.  Compartilho com vocês uma experiência pessoal:

Minha filha tinha 5 anos e meu filho 7 e eles estudavam no período da manhã. Eu trabalhava o dia todo e os deixava na escola antes de ir para o trabalho. Sair de casa com 2 filhos cedo sem atraso é uma verdadeira ginástica! Quem tem filhos pequenos sabe o que estou dizendo. Estávamos na garagem, entrando no carro quando minha filha vira pra mim e diz:
- mamãe, hoje eu tenho que levar uma foto de quando eu era bebê!

As fotos na minha casa ficam em caixas, no maleiro do guarda roupa, bem alto. Nenhuma possibilidade de subir e buscar naquela hora. Eu fiquei tão furiosa com aquela situação, que coloquei toda a culpa na professora. Mandei minha filha dizer a ela que eu não ia mandar a tal foto porque tinha mais o que fazer!

Depois fiquei refletindo sozinha sobre o fato de que aquelas palavras em nada ajudariam  a visão que minha filha cultivaria acerca da escola e dos trabalhos que se mandam para fazer em casa. A mensagem que passei foi de que aquilo não era importante e de que a professora estava pedindo coisas que não tinham relevância.

Na verdade, da parte da escola faltou pedir com antecedência ou mesmo pedir algo que aa própria criança pudesse providenciar sozinha. Da minha parte faltou organização, pois eu deveria ter perguntado a noite sobre os deveres e obrigações para o dia seguinte.
O fato é que, se não for para desenvolver autonomia e responsabilidade e se não for para agregar a família, o para casa serve pra que então?  
Para “treinar” as crianças porque no ano que vem as coisas vão ser bem mais apertadas?

No ano que vem elas estarão mais maduras e aptas a realizar muito mais atividades. Não vamos apressar o rio. Afinal, ele corre sozinho...

Priscila Boy é Consultora Educacional e palestrante. Trabalha com palestras e oficinas para pais e professores. Para convidá-la, faça contato pelo e-mail: priscilaboy@terra.com.br

sábado, 12 de março de 2016

Fim da letra cursiva?

Já postei alguns artigos aqui no blog sobre o ensino da letra cursiva. O assunto sempre gera polêmica e cria-se uma celeuma em torno da discussão.
Em minha última postagem, quando eu disse que a letra cursiva não deveria ser introduzida na educação infantil, quase fui linchada. A resistência dos educadores foi enorme, alguns chegaram a dizer que a letra cursiva é imprescindível para trabalhar a coordenação motora das crianças. E ainda, que para se ter uma letra bonita precisam sim, treinar bem o traçado.
Será? Conheço pessoas que tem excelente controle motor e a letra deles é horrível! E será que coordenação motora é pra ser trabalhada utilizando-se o treino de letra cursiva? Penso que jogar bola, correr, rodar pneus, arcos, rolar na terra, subir em árvore é muito mais eficaz- e prazeroso!

O motivo de eu voltar ao assunto é que li uma reportagem que me chamou muito a atenção. Na semana passada, os finlandeses, que são líderes no PISA e cujo país tem a educação mais eficaz do  mundo, ficaram sabendo pelos jornais e noticiários que o Ministério da Educação pensa em terminar com o ensino da letra cursiva nas escolas, ensinando apenas a letra de forma. Uma notícia que já era de se esperar num país onde a tecnologia é altamente utilizada e todas as crianças antes de se alfabetizarem já sabem mexer em computadores, tablets e telefones.

Mesmo assim, nós com mais de trinta anos (eu um pouquinho mais que isso!), não deixamos de ficar surpresos pela notícia que mostra que o futuro tecnológico está muito mais perto do que imaginamos. Mesmo defendendo que a letra retrata a personalidade e que é inútil ficar fazendo treinos, quando fiquei sabendo que o fim do ensino da letra cursiva, está ameaçada de extinção por decreto, o choque foi inevitável.

Por enquanto, isto é uma sugestão de projeto e que se aceito entrará em vigor em meados de 2016.

As crianças aprenderiam a reconhecer as letras escritas de forma cursiva mas estariam desobrigadas da tarefa enfadonha de tentar reproduzir as suas curvas e especificidades. Seriam capazes de ler mas não obrigadas a reproduzir.

Para este grupo, a escola não pode se isolar em si mesma em técnicas ultrapassadas ignorando o que faz parte da vida dos alunos e como eles se expressam. Hoje em dia se digita muito mais do que se escreve. Inclusive pessoas adultas em suas rotinas de trabalho utilizam cada vez menos o lápis e o papel, uma vez que podemos anotar nossos compromissos até nas agendas dos nossos telefones.

Particularmente, não acho imprescindível o ensino da letra cursiva. Diariamente me deparo com alunos cujas letras cursivas são ilegíveis. Eu mesmo lhes sugiro escrever com letras de forma. O que importa, penso eu, é a legibilidade do texto. Principalmente em processos avaliativos como ENEM e concursos.

O problema que pode surgir da prática do não ensino da letra cursiva, no meu entender, não está relacionado à aprendizagem de certas habilidades motoras específicas, que se desenvolvem com a prática do traçado desse tipo de letra, mas sim está relacionado com o fato de que, muitas vezes, quem se habitua a escrever apenas com letras de forma, acaba não sendo estimulado também a aprender a distinguir e respeitar as convenções da escrita.

Uma dessas convenções é particularmente importante: a distinção entre letras maiúsculas e minúsculas, que é significativa na maioria das línguas, inclusive na língua portuguesa. Já vi muitos alunos que escrevem apenas com letras maiúsculas ou que misturam letras maiúsculas com minúsculas, sem ter em conta as convenções de uso adequado de umas e de outras.
E esse fato, sim, afeta a legibilidade e até mesmo a compreensão dos textos, especialmente os gêneros mais complexos.

Por enquanto o projeto está em discussão, vamos ver no que vai dar. Mas uma coisa é certa: Mudanças ainda virão e a pergunta é: Nós professores, estamos prontos para estas mudanças?
E para finalizar, Compartilho com vocês um caso verídico contado por uma amiga, pra gente refletir:

A mãe chega em casa exausta e diz ao filho que não vai atender ninguém, porque está muito cansada e teve um dia muito difícil. O telefone toca e o filho de 5 anos atende. É alguém querendo falar com a mãe e ele logo diz que ela não pode atender porque teve um dia difícil e está muito cansada. A pessoa pergunta:
- Mas o que aconteceu com ela?
E o menino responde:
- Não sei não, mas acho que ela está aprendendo letra cursiva!

Priscila Boy é Consultora Educacional e palestrante. Trabalha com palestras e oficinas para pais e professores. Para convidá-la, faça contato pelo e-mail: priscilaboy@terra.com.br