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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Indisciplina e violência na escola: Uma realidade posta na sociedade contemporânea

Compartilho com vocês artigo publicado na Revista do SIEEESP ( Sindicato dos estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo) sobre como trabalhar a indisciplina na sala de aula.

Indisciplina e Violência na escola: uma realidade posta na sociedade contemporânea
Por Priscila Pereira Boy- Pedagoga, Mestre em Educação, MBA executivo Internacional em Marketing. Atualmente é Assessora Estratégica do Bernoulli Sistema de Ensino, escritora e palestrante.

Introdução
Vivemos momentos de muitos desafios para a escola. Crises em todos os âmbitos: desvalorização do professor, multiplicidade de propostas metodológicas e pedagógicas, resultados insuficientes, ausência e desestrutura da família, proposta de um novo ensino médio e uma Base Nacional Comum Curricular batendo à porta, que poderá mudar os rumos e caminhos percorridos até aqui. Aliás, a proposta é mesmo de mudança. Porque do jeito que está, a escola não está satisfatória para ninguém.

Alunos insatisfeitos, professores completamente perdidos em relação ao seu papel, um governo cheio de metas, mas com poucos investimentos efetivos para melhor da qualidade do ensino aprendizagem. Um grande desafio que pretendemos abordar neste artigo é sobre a relação entre professor e aluno, especificamente a indisciplina e a violência.

A escola, como um todo, passa por uma crise de sentido. Não há clareza para os alunos acerca do que eles estão fazendo lá. A falta de significação do que é estudar, a evasão, a reprovação e a violência que existem nas mais diferentes formas acabam por transformar esta relação professor-aluno ainda mais conflitante e difícil de ser trabalhada.

A indisciplina em números

Não é motivo de nenhum orgulho, mas estudos recentes conduzidos pela OCDE, o TALIS, (Teaching and Learning International Survey) constataram que os professores brasileiros gastam de 10% a 30% do tempo da aula para resolver questões disciplinares. Nos relatos eles disseram também que são frequentes as agressões verbais a professores e mais raras, porém crescentes as agressões físicas, a se julgar pelo noticiário.

Discute-se se mediar os conflitos na escola seria papel somente do professor ou se a presença de mediadores, pessoas preparadas e capacitadas em mediação de conflitos, teriam mais êxito nesta mediação. O fato é que o professor anda abarcando tantas atribuições, somado a uma carga horária extensa e desgastante, que não está dando conta de lidar com tantas demandas.

Em São Paulo, esta experiência vem sendo feita e tem alcançado sucesso. O vice-diretor tem atuado como mediadores nos conflitos escolares. Os números nas manifestações de violência e indisciplina tem mostrado queda e portanto, muitos estão entendendo que esta é uma medida eficaz no combate a indisciplina e a violência.

Contestar dados parece loucura, mas tenho minhas reservas quanto a isso. Mas, para me explicar melhor e não ser mal interpretada, terei que tecer alguns apontamentos para contextualizar o leitor sobre minhas considerações e reservas.

O mau comportamento em sala de aula é um fenômeno complexo que pode depender de muitas variáveis sociais e familiares. Vejam, que a indisciplina não é um assunto localizado apenas na relação professor e aluno.

Existe a família e sociedade, como atores neste processo e nas condutas que emergem neste relacionamento.

A nova família brasileira

As famílias brasileiras estão se transformando. Em 15 anos, de 1992 a 2007, o número de casais com filhos, estereótipo de família tradicional, caiu 11,2%. De lá pra cá estes números nunca aumentam. A queda foi compensada pelo aumento dos novos arranjos familiares: casais sem filhos, mulheres solteiras, mães com filhos, homens solteiros e pais com filhos. Os dados fazem parte do Relatório de Desenvolvimento Humano 2010, divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Hoje em dia há muitos tipos de família e a instituição atual em nada se parece com o modelo antigo de família, pois até aquelas semelhantes na formação são bem diferentes no modelo de educação. Nem por isso se desviou dela o cumprimento dos deveres que ela tem em relação à educação, provimento do sustento, afeto, vínculos afetivos, condições de vida dignas e de respeito perante o indivíduo que a forma.

A formação familiar é diversificada, sim, mas nem de longe pode ser negligente ou delegar essas responsabilidades para as instituições educacionais, eclesiásticas, entre outras. A família deve tomar atitudes que façam com que o crescimento do indivíduo e sua inserção na sociedade sejam saudáveis.

As famílias são apontadas pelos brasileiros como principais responsáveis por ensinar os valores. A passagem desses conceitos, contudo, independe das diversas dinâmicas e estruturas familiares.

Uma palavra importante na relação familiar é AFETO. Se não houver isso, não adianta ser criado por pai e mãe ao lado dos irmãos. Outra palavra-chave determina a passagem de valores: LIMITE. Esses são dois pontos importantes para o desenvolvimento e a estruturação da personalidade. O limite auxilia na socialização do indivíduo e o afeto dá estrutura. Conciliar esses aspectos é fundamental, independentemente do tipo de família que se configure.

A dimensão moral do ser humano tem de ser trabalhada desde a infância. Ética se aprende, não é uma coisa espontânea. É preciso lembrar que criar cidadãos éticos é uma responsabilidade de toda a sociedade.

A família, por exemplo, desempenha uma função muito importante até o fim da adolescência, enquanto tem algum poder sobre os filhos.

A escola, a igreja, os diversos grupos sociais também, na medida em que apresenta experiências de convívio diferentes das que existem no ambiente familiar - se deixo meu quarto bagunçado, o problema é meu; se deixo uma classe bagunçada, o problema não é só meu. É fundamental que o indivíduo se aproprie das regras sociais para que possam ter boa convivência, não só na escola, mas em qualquer contexto social. Uma vez quebrados estes limites , instaura-se muitos problemas e conflitos nos relacionamentos.

Estas regras de convívio devem ser aprendidas nos primeiros momentos da vida, no ambiente familiar. É o que chamamos de socialização primária. Tudo o que aprendemos com a nossa família, nos estruturará como indivíduos.

Ao iniciarmos o convívio com o mundo, estaremos expostos a socialização secundária. É possível que, ao conviver em espaços diferentes, com pessoas diferentes, os valores aprendidos inicialmente sejam confrontados e, ao fazermos nossas escolhas, vamos nos constituindo como sujeitos e formando nossa identidade.

Noções de autoridade, respeito, regras de conduta e relacionamento devem ser sedimentados pela família. A ausência desta formação pode gerar dificuldades no convívio social do aluno na escola e afetará suas relações com os seus pares e seus professores.

Citamos também a falta de afeto e presença dos familiares na vida dos alunos. Muitos casos de indisciplina estão ligados a rejeição, baixa estima, revolta e abandono. Há certas feridas interiores que são difíceis de cicatrizar e que acompanham os alunos ao logo de sua jornada escolar. Lidar com estas dificuldades interiores que os alunos trazem para a escola, as vezes se torna algo impossível para o professor.

O que é indisciplina afinal?

Conceituar indisciplina não é tarefa simples. Certa vez ouvi uma amiga dizer que “o nível de indisciplina dos alunos depende do nível de humor e de tolerância de cada um. ”

Diante da fala dela eu fiquei refletindo se há parâmetros coletivos para definir a indisciplina ou se este juízo de valor seria algo meramente individual, ou seja, o que é visto como indisciplina por um educador pode não ser visto da mesma forma por outro.

Segundo o dicionário Aurélio, “indisciplina é um procedimento, ato ou dito contrário à disciplina; desobediência, desordem, rebelião.”

 Neste contexto, a indisciplina se caracteriza pela quebra de algumas normas e regras e muitas vezes, somos levados a pensá-la de forma unilateral, ou seja, quando falamos em quebra de regras e normas, nos vem imediatamente a figura do aluno. Mas, não podemos refletir sobre os atos de indisciplina de forma isolada.
A disciplina deve nos trazer a ideia de um caminho a ser percorrido ao longo do processo educacional e do grau de comprometimento que deve existir entre os professores, alunos e outros funcionários escolares. Portanto, disciplina está, intimamente, ligada a capacidade de promover a boa convivência na vida escolar. E isto só será possível se todos os participantes do ambiente escolar estiverem envolvidos e comprometidos com esta possibilidade.
O conceito de indisciplina não é estático, uniforme, nem tampouco universal. Ele se relaciona com o conjunto de valores e expectativas que variam ao longo da história, entre as diferentes culturas e numa mesma sociedade. Precisamos analisar o contexto da transgressão para que possamos estabelecer as estratégias de intervenção.

Outra coisa muito importante a ser considerada na aplicação das sanções disciplinares é o estágio do desenvolvimento humano no qual o aluno se encontra. Suponhamos que um aluno tenha mordido o seu colega. Se este aluno tem 2 anos de idade, a intervenção é uma. Se ele tem 15 anos de idade, deve ser outra. As causas também são variáveis, de acordo com a idade do aluno em questão. Morder é um comportamento esperado e tolerado na fase oral ou seja, quando o aluno tem 2 anos de idade o que já não se aplica ao aluno de 15 anos, que já se encontra e uma fase completamente diferente. Morder com 15 anos se caracteriza muito mais com um ato de agressão voluntária e deve ser tratado com todo rigor. Para mater um clima de respeito e harmonia no ambiente escolar é fundamental que todos tenham clareza sobre as regras e normas de convivência.
Todas as regras combinadas e estabelecidas na escola devem ser respeitadas. Por isso a necessidade de clareza ao colocá-las e coerência na cobrança.  Geralmente, as regras gerais de funcionamento escolar, como os critérios de avaliação, a distribuição de notas, horários de entrada e saída, uso ou não de uniforme, se é permitido ou não namorar no ambiente escolar, etc devem ser expressas no Regimento Escolar, que deve ser um documento acessível a todo aluno e a família, logo no início do ano.
Toda a comunidade escolar deve estar ciente das normas. Há também uma necessidade de que estas regras sejam construídas de forma participativa. A escola é quem vai estabelecer suas normas, mas, antes de construí-las, a gestão deve abrir um diálogo, uma escuta a professores, comunidade interna e externa. Sempre há possibilidade de diálogo em relação a algumas normas que irão reger a relação cotidiana. Se todos são coautores das regras, certamente terão muito mais comprometimento para cumpri-las.
Geralmente, as regras que fazemos com a participação de todos são chamadas de contrato didático.

Construindo um contrato didático

O Contrato Didático é definido por Guy Brousseau como sendo a totalidade de comportamentos do docente esperados pelo aluno e a totalidade dos comportamentos do aluno que são esperados por esse docente, ou seja, são as expectativas do professor em relação ao aluno e deste em relação ao professor, incluindo-se o saber e as maneiras como esse saber é tratado por ambas as partes.
É importante diferenciar o Contrato Didático do Contrato Pedagógico, visto que este último é gerido de relações sociais, atitudes, regras e convenções, porém não coloca em jogo o saber. Esse saber é específico do contrato didático, o qual é influenciado pelos contextos de ensino e aprendizagem.

Há regras que são explícitas (aquelas que são explicitadas pelo professor) e implícitas (que acompanham a formação de cada indivíduo dentro do ambiente escolar). Com isso, o contrato didático vem tanto para explicitar as regras de modo a determinar a função de cada um dos participantes no processo de ensino e aprendizagem quanto para ressaltar as regras que deveriam ser conhecidas por todos.

A elaboração de um contrato didático difere em virtude da idade dos alunos. Na educação infantil e anos iniciais, onde o aluno ainda é pequeno e precisa mais de direcionamento do adulto, o ideal é fazer com a turma uma lista dos combinados. Sugiro que se faça um cartaz de coisas que valem e que não valem na sala de aula. Toda vez que houver uma transgressão, é necessário se reunir com a turma e retomar os combinados estabelecidos.

Para os alunos maiores, que já tem um nível de abstração e reflexão mais estruturado, a construção do contrato pode ser feita através de um debate ou uma dinâmica, em que os alunos exporão as regras que acham importantes para o bom funcionamento das aulas. Estas ideias deverão ser mediadas pelo professor, para que não se perca o foco do que deve ser discutido e para que seja dada a chance de todos falarem.
Muitas vezes os alunos podem querer estabelecer regras que estão fora de propósito ou fazer concessões que comprometerão o bom andamento da aula.

Neste momento é necessário intervir, fazendo os alunos refletirem sobre os desdobramentos de tais atitudes. Por exemplo, se os alunos dizem que deve ser permitido sair de sala na hora que quiserem, o professor deve fazê-los refletir sobre a necessidade de acompanhar a aula toda, as explicações e atividades para a compreensão e aprendizagem do que está sendo exposto.
Não participar das proposições, boicotar o trabalho proposto também é uma das manifestações de indisciplina.
Nunca se deve perder de vista que o professor deve exercer sua autoridade na sala de aula. Ao logo dos tempos o professor foi perdendo sua credibilidade e status social e isto fez com que ele ficasse confuso e inseguro em relação a sua posição e seu papel na sala de aula.

O papel do professor ao longo dos tempos

Antigamente o professor era um profissional bem mais valorizado, gozava de prestigio e status na sociedade ao contrário do que se percebe atualmente. Estamos vivendo um momento de muitas mudanças ocasionadas pela globalização, consumo e comunicação, marcado pelo fácil acesso a informação e em decorrência disso, o professor não é mais o único que detém todo o saber, deixou de ser o centro de tudo e passou a ser um mero mediador de certos conhecimentos. Em alguns mementos, o professor se torna um aprendiz, pois os alunos traz mais conhecimento sobre certo aluno do que ele mesmo. Isto é muito recorrente em assuntos ligados a era tecnológica por exemplo.

O professor enfrenta muitas dificuldades, não sabe mais como atuar em sala de aula. Em decorrência das mudanças ocorridas no cenário educacional e do perfil do aluno, o profissional precisa se manter atualizado, bem como desenvolver uma aprendizagem permanente para poder ser capaz de acompanhar essas transformações.

A falta de interesse dos alunos é mais um dos fatores que desestimulam o trabalho docente. Alguns professores lutam contra o fracasso escolar de seus alunos, porém, enfrentam a falta de interesse dos mesmos.

Hoje vivemos numa sociedade marcada pelos avanços científicos e tecnológicos, e em meio a tantas mudanças sociais mudou-se significativamente essa percepção da sociedade em relação a profissão docente.

Ainda temos que citar a necessidade de novas metodologias, que dialoguem com os “nativos digitais”, que são os alunos que nasceram após o advento da tecnologia. Pesquisam apontam que alunos que usam constantemente a tecnologia tem formas diferentes de aprender. Precisam de um ensino híbrido, de metodologias ativas e isto é um grande desafio para os docentes.
Desvalorização, ausência da família, alunos sem interesse e mundo mais atraente que a escola, são alguns dos fatores que contribuem para a indisciplina na sala de aula.

Celular: o campeão na quebra das regras

Na era da informação, a tecnologia móvel provocou profundas mudanças na maneira como a sociedade trabalha, aprende e se diverte.
Em um mundo onde a tecnologia faz parte da vida de quase todas as pessoas o celular especificamente tornou-se para os pais, símbolo de segurança e controle. Para os filhos, veículo de comunicação e fonte de entretenimento e informação. E para a escola? Oficialmente, sinônimo de proibição, porque o celular tem sido um grande desafio para os professores, pois o aluno não está conseguindo discernir como usá-lo, de forma ética e adequada, dentro do ambiente escolar.
O maior problema do celular em sala de aula hoje não está mais ligado no inconveniente do barulho ao se receber uma ligação. Não é simplesmente se o aluno pode ou não conversar ao celular. Aliás, a geração atual não costuma falar ao celular.  Silenciosamente, olhos e dedos estão centrados nas telas dos smartphones, enquanto o professor fala ou orienta alguma atividade, numa dispersão que nem sempre é barulhenta ou percebida. O silêncio e a apatia durante a aula podem ser decorrentes exatamente um indicativo do uso de aplicativos para troca de mensagens.

Alunos tem usado o celular para diversão, navegando nas redes sociais e se tornando totalmente dispersos nas aulas. Outros alunos usam o celular como consulta para aferir as informações dos professores e afrontá-los ou ainda filmam conversas, fazem ameaças, tiram fotos e tantas outras coisas que vemos todos os dias na sala de aula.

Sabemos de todas estas condutas, o que nos coloca, como educadores diante de algumas possibilidades e necessidades.

Em primeiro lugar, a escola é um espaço educativo e sabemos que mudar comportamentos e atitudes é coisa de longo prazo. Devemos educar os alunos para fazer uso adequado deste equipamento, que nos ajuda de várias formas a melhorar nossa vida cotidiana.

O professor pode valer-se de vários recursos digitais em sala de aula, elaborando projetos com intenções educativas claras e regras bem definidas.
Usar o celular para produzir vídeos, fotos, acessar resolução de exercícios, criar grupos de discussão podem ser boas alternativas para aproveitar o fascínio dos alunos pelo uso da tecnologia.

É claro que a intensidade, conveniência e eficiência da utilidade do celular como recurso didático precisam levar em conta a faixa etária dos alunos e a pertinência do conteúdo ou atividade desenvolvida. Não se trata, portanto, de seguir um imperativo do uso do celular em toda aula e durante todo o tempo.

O maior desafio é fazer com que o aluno não perca o foco, pois se bem utilizado, ele pode acrescentar muito à prática pedagógica.

Leis: a quem elas protegem?

Muitas leis de proteção vêm sendo criadas ao longo dos tempos. A mais famosa delas é o ECA (Estatuto da criança e do adolescente). Celebramos cada uma delas, pois acreditamos que crianças e adolescentes são cidadãos de direitos.

Quando os direitos fundamentais dos indivíduos são violados, percebemos que a violência recebida é imediatamente passada a frente. A escola, como Instituição de Educação, precisa ajudar a garantir os direitos dos educandos, bem como mediar as relações de violência e conflitos, que são uma das faces da indisciplina.

Mas, cabe aqui uma reflexão. Os direitos dos educandos acabaram por se tornar uma arma contra o professor. Já assisti a vários vídeos na internet onde alunos agrediam verbalmente e até mesmo fisicamente os professores e seus pares, ancorados nos direitos que sabem possuir.

Uma lei que surgiu para proteger, acabou colocando muitas pessoas em situação de vulnerabilidade. O Estatuto da Criança e do Adolescente não traz apenas direitos, mas também deveres. Os pais precisam retomar seu papel de autoridade e de responsabilidade – não se delega isso a terceiros. E o professor precisa resgatar seu papel de autoridade na sala, e o diretor, seu papel de autoridade na escola.
O que acontece na verdade, é a ineficiência do Estado para fazer cumprir as sanções que o ECA propõe. Este também não atua de forma preventiva, não exerce seu papel na oferta de oportunidades e sabemos bem, quando o estado falha, o crime entra.

O que assistimos todos os dias são professores desrespeitados e inertes frente as impossibilidades de agir, de forma mais incisiva, com alguns alunos, por causa da interpretação equivocada do que vem a ser os direitos das crianças e dos adolescentes

Nem tudo está perdido

O que fazer diante de tantos desafios? Será que não há uma solução possível?
Faz-se necessário examinar o problema sob outra ótica: a questão central não está na disputa entre professor e aluno e sim, na organização do trabalho coletivo para gerar coautoria na construção de regras e normas.

Uma disciplina ideal é aquela consciente e interativa, que tenha participação, respeito, responsabilidade, cooperação, reflexão, crítica e autocrítica, somado a construção do conhecimento e exercício da cidadania.

Nos dias atuais cresceu muito o número de pessoas que tem acesso à escola. A chegada de mais pessoas aumentou a diversidade e, consequentemente, seus conflitos.

A primeira solução que propomos é que o professor faça com que os alunos “Aprendam a conviver”. Para conviver com o outro, devemos ser educados a ter respeito e tolerância sempre. Atuar de forma preventiva, por meio do diálogo constante e de Projetos que envolvam alunos e comunidade.
Outra solução proposta é o incentivo a trabalhos que primem pelo protagonismo juvenil, que se dê voz e espaço para criação, e para que os alunos apontem caminhos e novidades.

A noção de pertencimento também previne muitos atos de indisciplina e de violência. Quando as relações se tronam amigáveis, tudo fica mais respeitoso e ameno. Sei de muitas experiências nas quais podemos constatar que, na medida em que a relação entre professor e aluno vai ganhando maior cumplicidade, respeito, confiança e afeto, as relações se tornaram muito menos violentas. A cooperação e a prática do diálogo entre a escola e as comunidades caracterizam regiões com menores índices de violência.


Considerações finais
A situação da indisciplina está longe de ser solucionada. Não é só contratar mediadores de conflitos e achar que o problema cotidiano da sala de aula está resolvido. Se o professor fosse reconhecido e imponderado como a figura de autoridade e colocado no lugar que merecia estar, as relações poderiam ser mediadas por ele mesmo.
 Nossa proposta é que os alunos, a família, o Estado e a sociedade valorizem, apoiem e legitimem a figura do professor, porque sem apoio, sem prestígio e sem investimento, eles não conseguirão fazer nada. Nem conter a indisciplina, nem ministrar as suas aulas.
Celso Vasconcellos assegura que é importante que haja participação e comprometimento de todos os envolvidos no processo pedagógico: pais, alunos, professores, equipe pedagógica, administrativa etc. na elaboração das normas disciplinares no âmbito escolar, viabilizando um projeto de participação democrática de forma consciente e interativa para que os problemas relacionados à escola sejam discutidos em conjunto.
E neste turbilhão de desafios que se colocam diante de nós todos os dias, se não nos abrirmos ao diálogo e ao trabalho coletivo, vamos avançar muito pouco e todo mundo vai sair perdendo. A educação pede socorro.

Referências
BOY, Priscila Pereira. Inquietações e desafios da escola. WAK editora,2010
BOY, Priscila Pereira. Afinal, quem manda nesta casa? Educando filhos nos dias atuais.
ARROYO, Miguel G. Oficio de Mestre: Imagens e Auto-|Imagens. Petrópolis, Rio deJaneiro. Vozes, 2000.
Machado, Nilson José.  Epistemologia e Didática: as concepções de conhecimento e inteligência e a prática docente. São Paulo: Cortez, 1995.
Oliveira, C. P. R. (2013). Treinamento de professores em grupo: um programa para trabalhar
problemas de comportamento em sala de aula. Belo Horizonte: Programa de Pós-graduação em
Neurociências, UFMG, dissertação de mestrado não publicada.
Perrenoud, Philippe.  Avaliação: da excelência à regulação das aprendizagens - entre duas lógicas.  Porto Alegre: Artmed, 1999.
Baldwin, J. D. & Baldwin, J. I. (2001). Behavior principles in everyday life (4th ed.). Upper Saddle
River (NJ): Prentice Hall.
Barkley, R. A., (1997). Defiant children: A clinician’s manual for assessment and parent training
(2nd. ed.). New York: Gu

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Ser, ter ou parecer? A sociedade do espetáculo

Por Priscila Pereira Boy*

Vivemos um momento de exposição constante. O privado cede lugar ao público, ao explícito. Rompem-se as fronteiras do segredo, da intimidade, do secreto. Estamos num tempo complexo, mesclado de espetáculos naturais e artificiais, influências de todas as partes, e imersos num mundo de culturas híbridas, que pode ser definido como um rompimento entre as barreiras que separa o que é tradicional e o que é moderno.

Com a globalização, predominantemente capitalista, recheada de estratégias de marketing, há um desdobramento de definições sociais onde o ser perde espaço para ter.
Importante é consumir e este consumo acaba se transformando em uma grande armadilha, um buraco sem fundo. 

Antes os produtos eram criados para suprir as necessidades das pessoas. Agora, estes são criados para gerar novas necessidades. Nunca se está satisfeito. Sempre há um algo a consumir, um “plus” a mais, um complemento. As pessoas consomem, mas estão sempre insatisfeitas, infelizes e incompletas com suas aquisições.
Segundo Alfredo J. ai se revela claramente a sociedade das armadilhas. Estas se escondem e dissimulam, uma em cada curva e em cada passo do caminho, uma em cada novo lançamento mercadológico. De vários modos manifestam sua fumaça ilusória e passageira: na fórmula mágica dos produtos que prometem eliminar a queda de cabelo, a gordura acumulada ou os efeitos do tempo, prometendo como aditivo um rejuvenescimento contínuo; nos dispositivos cada vez mais sofisticados e inovadores dos aparelhos eletrônicos, que os tornam obsoletos já no ato mesmo de serem adquiridos e tantas outras coisas...

E por falar em tecnologia, a chegada dela nos coloca diante de outra situação: o ter perde espaço para o parecer

O mundo virtual nos traz novos paradigmas:  o indivíduo passa a ser e a viver uma vida sonhada e idealizada, na qual a ficção mistura-se à realidade, e vice-versa. Já não sabemos mais quem somos: seres reais ou idealizados, “avatares”, atrás dos quais nos escondemos para navegar no mundo virtual. Podemos ser quem quisermos, agir de forma encantadora, sermos os seres mais felizes do mundo. 
Essa constante exposição virtual, transmite uma sensação de permanente aventura, felicidade, grandiosidade e ousadia. Mas, no fundo, gera uma grande frustração. Acabamos por perder nossa identidade. Já não sabemos mais se somos o que postamos, se somos o que vivemos ou o que gostaríamos de ser.

A excessiva exposição nos leva a não conviver com a realidade. O importante é produzir imagens e dá-lhe postagens.
Estamos no velório? Tiramos uma selfie e postamos nossas condolências, ao invés do abraço apertado e presencial.
Estamos em uma festa? Outra selfie para mostrar a nossa felicidade, ao invés de aproveitar os amigos, curtir, dançar um pouco, comer bastante e sorrir.
Estamos no show? Perdemos o espetáculo ao vivo, pois o vemos pela lente do celular, com inúmeras fotos e filmagens que fazemos, porque temos que mostrar aos amigos que estávamos lá. Pra depois, claro, postar.

Mas, nada se compara ao tal do “Zap, zap” ( Whatsapp)! Ele nos consome toda a atenção e tempo. Um monte de vídeo que a gente recebe, cada um mais sem pé nem cabeça que o outro. Se você entra em um grupo de educação, daí há pouco o povo já está trocando receitas e falando o que a gente faz para emagrecer mais rápido.
Entra em grupo da igreja e o povo xinga, fala palavrão, manda foto sensual.
Uma mistura que no fim a gente acha até graça! É muita vontade de aparecer! 

É A sociedade do espetáculo, como descreveu muito bem o francês Guy Debort, que em seu livro, nos alerta que “tudo o que é bonito aparece, tudo que aparece é bonito”.  Quando tudo se torna espetáculo, tudo pode igualmente converter-se em escombros e ruínas. Acabamos por nos desumanizarmos, transformarmos as pessoas em meros objetos de prazer. E o pior que nos acontece é que não sabemos mais quem somos nós. 
O que importa é parecer e não ser.

Talvez o maior desafio da sociedade contemporânea, global, pluralizada e informatizada seja este: tornar reais e solidárias as relações virtuais, fazer descer das nuvens à terra o mundo cibernético, tornar próximos os laços à distância. E como sinaliza o sociólogo polaco Zigmund Bauman, não fazer das relações "amores líquidos e fluídos" e nem das redes sociais armadilhas.

E aqui entramos no campo da ética e das opções pessoais. O desafio – e não é pequeno – reside no ato de superar o egocentrismo da sociedade atual, por uma rede de relações verdadeiras. 
O desafio é fazer a vida real tão bela quanto a vida virtual.

Pedagoga- Mestre em Educação- Escritora e apresentadora do canal no youtube" Familias conectadas com Priscila Boy"

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Idade Media ou idade mídia? Sobre o uso da tecnologia em ambientes educacionais




Compartilho com vocês um artigo que escrevi e que foi publicado esta semana na Revista do SIEEESP (Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino de São Paulo). O tema:

"Idade média ou idade mídia? Sobre o uso da tecnologia em ambientes educacionais".

Por Priscila Pereira Boy- Pedagoga, Mestre em Educação, MBA executivo Internacional em Marketing. Atualmente é Assessora Estratégica Pedagógica no Bernoulli Sistema de ensino,, escritora e palestrante.

Marcado por mudanças significativas, o século XXI coloca a escola diante de um grande desafio: repensar a sua forma de ensinar. Estamos vivendo em um mundo globalizado, de afirmação das diferenças e mudança de paradigma. O avanço da tecnologia impactou totalmente as relações sociais, a forma de agir, pensar e de se comunicar e por isso nos impõe novas formas de agir.

Lidar com novas possibilidades requer ousadia e humildade. Ousadia para quebrar modelos antigos, desconstruir práticas já consolidadas e lidar como o inesperado. Humildade para reconhecer que o que sabemos sobre tecnologia pode ser insuficiente para superar os saberes dos alunos e por isso, temos que nos abrir para aprender com eles.

Os alunos: Os nativos digitais

Estamos diante da geração que nasceu com a existência da tecnologia e por isso não enfrentam barreiras frente a ela. São os chamados “nativos digitais”. Esta geração já nasceu conectada e tem um relacionamento íntimo com o universo digital. É muito bem informada e há necessidade de nos prepararmos para dialogar com ela.

De acordo com a pesquisa TIC Kids Online Brasil, crianças de seis anos já estão criando suas primeiras contas online. Mais de 80% dos jovens brasileiros entre 15 e 17 anos usam internet. Entre os 9 e os 17 anos, 90% possuem ao menos um perfil em rede social. Podemos constatar uma verdade: cada vez mais cedo a internet faz parte da vida dos nossos alunos. E de forma intensa.

Um outro levantamento, este feito pela Amdocs Brasil, perguntou a adolescentes brasileiros se eles gostariam de ter um dispositivo com acesso à internet acoplado ao corpo. 88% deles responderam que sim.

É fato que a era digital mudou a forma de agir, de se relacionar e também de aprender. Estamos diante de uma sociedade marcadamente virtual e compartilhada. O limite entre o real e o imaginário fica à mercê da indústria que determina um comportamento segmentado e unilateral.

A escola precisa se valer deste novo recurso e ensinar os alunos a lidar com esta ferramenta tão poderosa.

Novas tecnologias possibilitam novas metodologias

Faz-se necessário repensar os modelos tradicionais de ensino para reflexões acerca do exercício da cidadania digital: novos valores, novas posturas e novas metodologias.

Nessa perspectiva, a inclusão de recursos digitais na escola possibilita a comunicação entre alunos e professores, potencializa o interesse e motiva os alunos para a aprendizagem. A proposta favorece uma educação baseada na aprendizagem significativa, isto é, uma educação em que os alunos constroem significados atribuindo sentido àquilo que aprendem e aplicam esse conhecimento no cotidiano.

Desta forma o ensino passa a ter o foco na aprendizagem, com ênfase na formação de competências múltiplas, no empreendedorismo, na solução de problemas, no trabalho em equipe de modo colaborativo.

Rompem-se as barreiras físicas e fomentam-se os ambientes colaborativos virtuais. E há ainda a possibilidade da interação com outras culturas, porque o mundo virtual não tem fronteiras.

Possibilidades de uso das redes sociais e dos ambientes virtuais

São muitas as alternativas de trabalho com a tecnologia.  Podemos usar uma multiplicidade de recursos e atuar de forma interdisciplinar. Abaixo sinalizamos algumas possibilidades a serem adotadas no cotidiano.

Sabemos que toda informação, para fazer parte de estudos acadêmicos e ampliar o conhecimento das pessoas, deve ter credibilidade e veracidade. Muitas são as fontes que o meio virtual oferece, mas nem todas são confiáveis. Uma estratégia eficiente pode ser orientar os alunos a procurar por especialistas que tenham perfil na rede e que possam ajuda-los a tirar algumas dúvidas ou fornecer entrevistas e informações confiáveis.

Abandone a Wikipédia como fonte, pois Wikis são construídos de forma colaborativa, sem aferição de veracidade e já foram identificadas muitas incongruências e inverdades nesta fonte de consulta.

Outra proposta interessante é orientar os alunos a entrar em contato com parentes distantes para fazer pesquisas genealógicas ou com personalidades locais para discutir matérias tratadas em sala de aula.

A criação de clubes do livro online pode também aguçar o gosto pela leitura. Troca de livros, postagem de sinopses, blogs com indicações de obras e críticas temáticas também podem trazer bons resultados.

Para o ensino de novos idiomas, a rede oferece múltiplas possibilidades. Conecte seus alunos com pessoas de todo mundo. Se você é professor de inglês ou espanhol e possui amigos do exterior que falam essas línguas, organize bate papos para que os estudantes possam praticar os idiomas.

Para aqueles alunos que não gostam muito de falar ou de expor suas opiniões em público, você pode organizar atividades de participação online onde eles poderão participar escrevendo sua opinião ou conhecimentos, o que ajudará você na hora de avaliar a participação deles.

Outra novidade que está sendo muito utilizada é a Gamificação (ou, em inglês, gamification) que é hoje uma das apostas da educação no século XXI. O termo complicado significa simplesmente usar elementos dos jogos de forma a engajar pessoas para atingir um objetivo. A gamificação torna as aulas mais atraentes e dialoga melhor com o universo dos alunos. Pode-se oferecer prêmios para mudança de fases, criar avatares e cenários, distribuir pontos e lançar desafios.

Na educação, o potencial da gamificação é imenso: ela funciona para despertar interesse, aumentar a participação, desenvolver criatividade e autonomia, promover diálogo e resolver situações-problema.

Sabemos da importância do ensino presencial e de algumas habilidades que este ambiente proporcionará aos alunos. Por isso mesmo propomos um ensino híbrido, onde se pratique tanto o ensino no ambiente virtual quanto no ambiente presencial.

Novas metodologias pedem novos modelos de avaliação

A avaliação escolar sempre foi um desafio. Muitos educadores ainda veem a avaliação como final da etapa de ensino, mas, na verdade, a avaliação é um processo e não um momento estanque em si mesmo.

E ainda, instrumentos de avaliação não são necessariamente avaliação. É preciso avaliar sempre, acompanhar, monitorar, mas o que realmente vai garantir a aprendizagem são as intervenções que fazemos frente ao desempenho do aluno. A avaliação serve para retroalimentar o planejamento. Ao avaliar, temos a clareza daquilo que foi aprendido pelo aluno e daquilo que ainda precisa ser consolidado.

Diante das novas TIC`S, faz-se necessário incorporar avaliações que dialoguem com o ambiente virtual. Ambientes colaborativos virtuais de aprendizagem, avaliações online, apresentações em vídeo, podcasts e muitas outras possibilidades.

Uma coisa importante a ser observada é a necessidade de avaliar também individualmente o aluno, pois precisamos garantir que as habilidades mínimas exigidas foram alcançadas.

A formação continuada dos educadores

Se o educador desenvolve bem o seu papel de mediador do conhecimento possibilitando essas oportunidades de interlocução com as mídias, os alunos irão naturalmente desenvolver habilidades e competências de criatividade e inovação com o uso de dispositivos móveis. Cabe ao educador incentivá-los quanto ao uso, como uma ferramenta de aprendizagem.

Projetos desenvolvidos por meio de blogs, aulas interativas, explicação de fenômenos científicos usando animação em stop-motion, criação de entrevistas, programas de rádio, uso de portais e outras mídias alternativas incentivam a maior participação dos alunos nas atividades escolares e proporcionam benefícios na aprendizagem. Usar dispositivos móveis, como tablets, celulares e notebooks também constituem em boas estratégias de diversificação das metodologias de ensino.

Há vários recursos de aprendizagem que o professor pode desenvolver.

Porém, vale aqui um alerta importante: De nada adianta tecnologias novas se as práticas continuam velhas. 

Vejo muitos professores valendo-se das mídias e recursos digitais, mas com postura de aula tradicional. Os arquivos funcionam apenas como PDF, ou seja, é como se digitalizássemos os livros e, ao invés de papel, usássemos a lousa digital ou os dispositivos móveis.

O professor só dará conta desta nova forma de ensinar se for oferecido a ele formação continuada. Ele precisa apropriar-se desta nova experiência, mesmo porque ele não é um nativo digital. Muitos deles não se sentem seguros e nem confortáveis diante do uso da tecnologia. Se não houver investimento na formação deles, estaremos colocando em cheque todo o processo.

Criando regras para o convívio digital

Com o uso contínuo das redes virtuais, corre-se o risco de transigir algumas regras de boa convivência que não podemos deixar de salientar. Como estamos propondo que a escola seja incentivadora do uso da tecnologia, precisamos ser participantes também no trabalho de educação para a cidadania e boa convivência.

É necessário informar e educar os alunos sobre regras de convivência no meio virtual. Cuidados com a segurança também devem ser dialogados para evitar assédios, abusos, oferta de pornografia ou vicio nela, aliciamentos para o tráfico, para o terrorismo etc.

Muitas pessoas usam as redes sociais para descarregar, atenuar suas frustações ou aplacar seus medos na vida real. Diante do anonimato, as pessoas se trasvestem de “avatares” virtuais e atacam os outros, falam coisas que jamais falariam na vida real. Estas ofensas constantes são chamadas de cyberbulling.

Há práticas, das mais bizarras e inimagináveis possíveis: usar fotos de pessoas mortas para perfis falsos, ataque a imagem e índole de pessoas que já morreram, compartilhamento de fotos comprometedoras e íntimas na rede pública, disseminação de boatos e fofocas sobre colegas de escola, ataque indiscriminado à opinião das pessoas, apelidos e muitas outras coisas.

O fato é que a rede social tem seus benefícios, como a capilaridade, ou seja, seu alcance, mas pode ser uma verdadeira arma de humilhação, difamação da reputação e da imagem das pessoas, quando mal utilizada. É preciso dialogar com os alunos sobre isto e principalmente: é preciso envolver a família neste processo.

Promovendo a interação com a família

A criação de regras para um convívio digital é necessária e saudável. Sabe-se que o uso incondicional e sem limites em qualquer situação pode ser desastroso. Esta função extrapola os limites da escola. É fundamental envolver as famílias neste processo.

Segundo o sociólogo francês Pierre Bourdier, a socialização primária vem da família.

Entende-se por socialização primária o espaço onde a criança aprende e interioriza a linguagem, as regras básicas da sociedade, a moral e os modelos comportamentais do grupo a que se pertence. Ela tem um valor primordial para o indivíduo e deixa marcas muito profundas em toda a sua vida, já que é aí que se constrói o primeiro mundo dele.

Compartilhe com as famílias as iniciativas, Projetos e informações sobre o uso da tecnologia e das redes sociais, reforçando ainda mais a relação e responsabilidade delas com a educação dos filhos.

Barreiras a serem vencidas:

A iniciativa de usar recursos dos meios digitais na educação também tem seus entraves. Um deles é a dificuldade que o professor tem, tanto em sua atualização quanto na disponibilidade de tempo para interagir com estas novas mídias.

Atenta a isto, as escolas devem formatar programas de formação continuada para os professores e gestores e também dialogar com alunos e pais sobre essa novidade.

São muitas as possibilidades, mas temos que superar as barreiras.

O mais difícil é abrir a mente para novos rumos, desconstruir práticas e abrir mão de convicções. Isso sim é a maior barreira para a mudança na Educação.

Bibliografia

BOY, Priscila Pereira. Inquietações e desafios da escola. WAK editora,2010

Machado, Nilson José.  Epistemologia e Didática: as concepções de conhecimento e inteligência e a prática docente. São Paulo: Cortez, 1995.

Perrenoud, Philippe.  Avaliação: da excelência à regulação das aprendizagens - entre duas lógicas.  Porto Alegre: Artmed, 1999.

Sacristán, J. G. e Pérez Gómez, A. I.  Compreender o ensino..

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

A Base Nacional Comum a todos: o medo

O anúncio das mudanças do formato do Ensino Médio e a homologação da nova BNCC causou grande celeuma na semana passada. 

Jornais, revistas, redes sociais e todas as mídias se voltaram para esta temática.

Educadores tentando compreender tudo e calculando o impacto que elas trarão para suas práticas cotidianas.
Gestores, especialistas, pais e alunos, todos querendo compreender o fenômeno e saber o que de fato vai afetar suas vidas e sua prestação de serviço.

Em síntese, a proposta está pautada em uma Base Nacional Comum, ou seja, disciplinas obrigatórias e outra parte de livre escolha dos estudantes.

Toda esta movimentação, me fez refletir: o novo assusta. Desconstruir as bases, rever paradigmas, pensar na possibilidade de tatear no escuro, causa sentimentos diferenciados nas pessoas. Mas, todos eles escondem “uma base nacional comum”: o medo.

O fantasma do medo assola todas as pessoas.  Medos diferenciados é bem verdade, mas presentes em todos nós.

Para os profissionais da educação, ou o setor que está envolvido com ela, os medos são mais concretos. Em primeira linha está o medo de perder o posto de trabalho, associado à demora para encontrar outro caminho. E a temida sensação de que os rendimentos familiares, raros, não chegarão ao final do mês, ou de que não se saiba onde buscar o alimento para o dia seguinte.

Aos que ocupam uma posição de liderança e são mais abastados, que tem investimentos, são donos de escola, sistemas de ensino, editoras e empresas fornecedoras e afins, prevalece o medo diante do humor sempre instável e imprevisível do mercado. Medo de perder o negócio, os privilégios conquistados, a riqueza, a renda, enfim, de perder a posição social e a consolidação diante do mercado educacional.

Espremida entre os educadores e os investidores, os alunos e as famílias também tem seus medos, porque, por natureza, morrem de vontade de subir na vida por meio da educação e, simultaneamente, morrem de medo de que a qualidade e as oportunidades venham a cair.

Outros medos ocultos e invisíveis povoam o coração, a mente e a alma do ser humano cotidianamente:
Medo da solidão e da multidão; medo da dor e da doença, particularmente aquela que nos deixa, em tudo e para tudo, dependentes de outrem; medo de perder o calor, conforto e refúgio do lar, da separação dos entes queridos, da velhice inexorável, do convívio permanente com o fantasma da morte; medo do amanhã, do erro quanto à escolha nas relações pessoais, familiares e comunitárias, bem como quanto à opção profissional; medo da sensação de vazio, de falta de sentido e de inutilidade da própria existência; medo de avião, de elevador e de altura; fobias...

E há um medo bem característico da sociedade moderna ou pós-moderna, contemporânea e extremamente competitiva. Trata-se do medo de ficar para trás.

Disputa frenética pelos objetos da última temporada, pelos aparelhos da tecnologia de ponta, pelo carro do ano, o celular do momento, a roupa e o calçado da moda... Medo de perder a corrida para o vizinho ao lado, o parente esnobe ou o companheiro de trabalho. Medo de se tornar antiquado, tradicional, ultrapassado; do correr dos anos que faz ganhar peso, perder cabelo e criar rugas. Medo de não aparecer como o primeiro no bairro, na família e entre os amigos.

Medo do Ranking do ENEM. E da perda de alunos.

Isso mesmo, sai de cena a famosa frase da tragédia de Shakespeare, em Hamlet, “ser ou não ser, eis a questão”. Aqui o importante não é ser, mas pura e simplesmente aparecer. Como nos sinaliza o francês Guy Debord em seu livro “ A sociedade do espetáculo”:

TUDO O QUE É BONITO APARECE. TUDO O QUE APARECE É BONITO.

Quantos medos moram no íntimo do coração humano, povoam sua mente, e lhe atormentam a alma?! Quantos medos sobrecarregam os ombros de todo ser humano?
Medos resistentes como ervas daninhas, difíceis, quase impossíveis de exorcizar!

Como uma pessoa de bases cristãs que sou, penso que talvez nos falte um dos ingredientes que, desde os primórdios da história da humanidade, contribuíram decisivamente para o crescimento desta civilização. Refiro-me à tradição judaico-cristã, tão fortemente enraizada nos países e culturas ocidentais. Sim, talvez estejamos carentes da utopia da Terra Prometida ou da Boa Nova do Evangelho, o Reino de Deus, com seu horizonte escatológico.

Efetivamente, a vida, ação, obras e palavras de figuras como Jesus, Moisés e Paulo (para citar apenas esses testemunhos) nos asseguram que as pessoas movidas pela fé, esperança e caridade são capazes de exorcizar o fantasma do medo em suas mais diversas máscaras e ameaças. E temos outras figuras históricas, que nos ensinam com sua garra e determinação a enfrentar os medos frente a um ideal: Mandela, Gandhi, Madre Teresa de Calcutá.

Para não ficar só em exemplos da esfera da fé e contemplar também os céticos com histórias de esperança, temos o grupo Alpargatas (das sandálias havaianas) que se deparou com os novos entrantes e mudanças e resolveu se reinventar e dar a volta por cima.

Contrariamente, a Kodak, que detinha grande parte da fatia do mercado da fotografia no mundo, se recusou a dialogar com as novas tendências do mercado e foi engolida pelo Instagram, para onde migraram os amantes da fotografia.

Só existe uma forma de vencer o medo: é encarnado o medo de frente!

Ao nos darmos conta de que toda novidade traz consigo uma grande oportunidade, nossos medos se transformam em esperanças