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terça-feira, 15 de março de 2016

Para Casa na Educação Infantil?


Muitas professoras se queixam comigo sobre o alto número de alunos que não faz o para casa ou que traz o caderno onde nitidamente se vê que quem fez o dever não foi a criança e sim sua mãe.
O fato é que os “Para Casa” que damos às crianças costumam deixar as famílias totalmente mobilizadas! Muitas vezes, nos excedemos na quantidade e na complexidade das tarefas.

O primeiro questionamento que faço é: Será mesmo necessário dar atividades de casa para crianças da educação infantil? Um dos argumentos que ouço é de que a criança precisa de ter um tempo em casa para rever os conteúdos a fim de sistematiza-los. Quando acreditávamos que a educação se dava por meio da memorização, da fixação e do adestramento, muito bem representado pelo condicionamento clássico operante, de Pavlov, realmente se justificava treinar os alunos, condicioná-los, para que alcançassem bons resultados futuros.

Porém hoje, com os estudos psicogenéticos, com a neurociência, temos prova de que as crianças aprendem  por meio de construções internas e que tem fases de desenvolvimento nas quais podemos constatar algumas características distintas umas das outras. Diante disto, percebemos que não é produtivo forçar as crianças antecipadamente a alguns tipos de comportamento ou execução de atividades. 

Há outro fator muito importante a ser considerado, que é a importância do brincar para a representação do mundo adulto por parte da criança. Vigotsky nos relata muito bem que a criança fantasia porque tenta desesperadamente entender o mundo. Quando enchemos as crianças de atividades, para prepará-las para o ano seguinte, tiramos delas a oportunidade do brincar, ação FUNDAMENTAL para o desenvolvimento do indivíduo na infância.

Na verdade, para crianças pequenas, o Para Casa serve mesmo é para desenvolver duas coisas: autonomia e responsabilidade.

Chegar em casa, tirar o caderno, fazer as atividades e depois recolocar os materiais na mochila, faz com que a criança compreenda que a vida acadêmica requer um certo ritmo. Quando ela estiver mais velha, não terá dificuldade para cumprir prazos ou entregar seus trabalhos em dia.
Ao realizar as atividades propostas, ela vai ganhando auto confiança, e marcando um ritmo de estudo. Se damos atividades que as crianças não conseguem desenvolver sozinhas, necessitando sempre da ajuda de um adulto, estamos perdendo esta possibilidade, de exercitar a construção da autonomia. Muitas vezes pedimos coisas que fazem com que os pais fiquem furiosos, porque a família hoje anda muito sem tempo para certas coisas muito trabalhosas.  Compartilho com vocês uma experiência pessoal:

Minha filha tinha 5 anos e meu filho 7 e eles estudavam no período da manhã. Eu trabalhava o dia todo e os deixava na escola antes de ir para o trabalho. Sair de casa com 2 filhos cedo sem atraso é uma verdadeira ginástica! Quem tem filhos pequenos sabe o que estou dizendo. Estávamos na garagem, entrando no carro quando minha filha vira pra mim e diz:
- mamãe, hoje eu tenho que levar uma foto de quando eu era bebê!

As fotos na minha casa ficam em caixas, no maleiro do guarda roupa, bem alto. Nenhuma possibilidade de subir e buscar naquela hora. Eu fiquei tão furiosa com aquela situação, que coloquei toda a culpa na professora. Mandei minha filha dizer a ela que eu não ia mandar a tal foto porque tinha mais o que fazer!

Depois fiquei refletindo sozinha sobre o fato de que aquelas palavras em nada ajudariam  a visão que minha filha cultivaria acerca da escola e dos trabalhos que se mandam para fazer em casa. A mensagem que passei foi de que aquilo não era importante e de que a professora estava pedindo coisas que não tinham relevância.

Na verdade, da parte da escola faltou pedir com antecedência ou mesmo pedir algo que aa própria criança pudesse providenciar sozinha. Da minha parte faltou organização, pois eu deveria ter perguntado a noite sobre os deveres e obrigações para o dia seguinte.
O fato é que, se não for para desenvolver autonomia e responsabilidade e se não for para agregar a família, o para casa serve pra que então?  
Para “treinar” as crianças porque no ano que vem as coisas vão ser bem mais apertadas?

No ano que vem elas estarão mais maduras e aptas a realizar muito mais atividades. Não vamos apressar o rio. Afinal, ele corre sozinho...

Priscila Boy é Consultora Educacional e palestrante. Trabalha com palestras e oficinas para pais e professores. Para convidá-la, faça contato pelo e-mail: priscilaboy@terra.com.br

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