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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Ser, ter ou parecer? A sociedade do espetáculo

Por Priscila Pereira Boy*

Vivemos um momento de exposição constante. O privado cede lugar ao público, ao explícito. Rompem-se as fronteiras do segredo, da intimidade, do secreto. Estamos num tempo complexo, mesclado de espetáculos naturais e artificiais, influências de todas as partes, e imersos num mundo de culturas híbridas, que pode ser definido como um rompimento entre as barreiras que separa o que é tradicional e o que é moderno.

Com a globalização, predominantemente capitalista, recheada de estratégias de marketing, há um desdobramento de definições sociais onde o ser perde espaço para ter.
Importante é consumir e este consumo acaba se transformando em uma grande armadilha, um buraco sem fundo. 

Antes os produtos eram criados para suprir as necessidades das pessoas. Agora, estes são criados para gerar novas necessidades. Nunca se está satisfeito. Sempre há um algo a consumir, um “plus” a mais, um complemento. As pessoas consomem, mas estão sempre insatisfeitas, infelizes e incompletas com suas aquisições.
Segundo Alfredo J. ai se revela claramente a sociedade das armadilhas. Estas se escondem e dissimulam, uma em cada curva e em cada passo do caminho, uma em cada novo lançamento mercadológico. De vários modos manifestam sua fumaça ilusória e passageira: na fórmula mágica dos produtos que prometem eliminar a queda de cabelo, a gordura acumulada ou os efeitos do tempo, prometendo como aditivo um rejuvenescimento contínuo; nos dispositivos cada vez mais sofisticados e inovadores dos aparelhos eletrônicos, que os tornam obsoletos já no ato mesmo de serem adquiridos e tantas outras coisas...

E por falar em tecnologia, a chegada dela nos coloca diante de outra situação: o ter perde espaço para o parecer

O mundo virtual nos traz novos paradigmas:  o indivíduo passa a ser e a viver uma vida sonhada e idealizada, na qual a ficção mistura-se à realidade, e vice-versa. Já não sabemos mais quem somos: seres reais ou idealizados, “avatares”, atrás dos quais nos escondemos para navegar no mundo virtual. Podemos ser quem quisermos, agir de forma encantadora, sermos os seres mais felizes do mundo. 
Essa constante exposição virtual, transmite uma sensação de permanente aventura, felicidade, grandiosidade e ousadia. Mas, no fundo, gera uma grande frustração. Acabamos por perder nossa identidade. Já não sabemos mais se somos o que postamos, se somos o que vivemos ou o que gostaríamos de ser.

A excessiva exposição nos leva a não conviver com a realidade. O importante é produzir imagens e dá-lhe postagens.
Estamos no velório? Tiramos uma selfie e postamos nossas condolências, ao invés do abraço apertado e presencial.
Estamos em uma festa? Outra selfie para mostrar a nossa felicidade, ao invés de aproveitar os amigos, curtir, dançar um pouco, comer bastante e sorrir.
Estamos no show? Perdemos o espetáculo ao vivo, pois o vemos pela lente do celular, com inúmeras fotos e filmagens que fazemos, porque temos que mostrar aos amigos que estávamos lá. Pra depois, claro, postar.

Mas, nada se compara ao tal do “Zap, zap” ( Whatsapp)! Ele nos consome toda a atenção e tempo. Um monte de vídeo que a gente recebe, cada um mais sem pé nem cabeça que o outro. Se você entra em um grupo de educação, daí há pouco o povo já está trocando receitas e falando o que a gente faz para emagrecer mais rápido.
Entra em grupo da igreja e o povo xinga, fala palavrão, manda foto sensual.
Uma mistura que no fim a gente acha até graça! É muita vontade de aparecer! 

É A sociedade do espetáculo, como descreveu muito bem o francês Guy Debort, que em seu livro, nos alerta que “tudo o que é bonito aparece, tudo que aparece é bonito”.  Quando tudo se torna espetáculo, tudo pode igualmente converter-se em escombros e ruínas. Acabamos por nos desumanizarmos, transformarmos as pessoas em meros objetos de prazer. E o pior que nos acontece é que não sabemos mais quem somos nós. 
O que importa é parecer e não ser.

Talvez o maior desafio da sociedade contemporânea, global, pluralizada e informatizada seja este: tornar reais e solidárias as relações virtuais, fazer descer das nuvens à terra o mundo cibernético, tornar próximos os laços à distância. E como sinaliza o sociólogo polaco Zigmund Bauman, não fazer das relações "amores líquidos e fluídos" e nem das redes sociais armadilhas.

E aqui entramos no campo da ética e das opções pessoais. O desafio – e não é pequeno – reside no ato de superar o egocentrismo da sociedade atual, por uma rede de relações verdadeiras. 
O desafio é fazer a vida real tão bela quanto a vida virtual.

Pedagoga- Mestre em Educação- Escritora e apresentadora do canal no youtube" Familias conectadas com Priscila Boy"