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segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Idade Media ou idade mídia? Sobre o uso da tecnologia em ambientes educacionais




Compartilho com vocês um artigo que escrevi e que foi publicado esta semana na Revista do SIEEESP (Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino de São Paulo). O tema:

"Idade média ou idade mídia? Sobre o uso da tecnologia em ambientes educacionais".

Por Priscila Pereira Boy- Pedagoga, Mestre em Educação, MBA executivo Internacional em Marketing. Atualmente é Assessora Estratégica Pedagógica no Bernoulli Sistema de ensino,, escritora e palestrante.

Marcado por mudanças significativas, o século XXI coloca a escola diante de um grande desafio: repensar a sua forma de ensinar. Estamos vivendo em um mundo globalizado, de afirmação das diferenças e mudança de paradigma. O avanço da tecnologia impactou totalmente as relações sociais, a forma de agir, pensar e de se comunicar e por isso nos impõe novas formas de agir.

Lidar com novas possibilidades requer ousadia e humildade. Ousadia para quebrar modelos antigos, desconstruir práticas já consolidadas e lidar como o inesperado. Humildade para reconhecer que o que sabemos sobre tecnologia pode ser insuficiente para superar os saberes dos alunos e por isso, temos que nos abrir para aprender com eles.

Os alunos: Os nativos digitais

Estamos diante da geração que nasceu com a existência da tecnologia e por isso não enfrentam barreiras frente a ela. São os chamados “nativos digitais”. Esta geração já nasceu conectada e tem um relacionamento íntimo com o universo digital. É muito bem informada e há necessidade de nos prepararmos para dialogar com ela.

De acordo com a pesquisa TIC Kids Online Brasil, crianças de seis anos já estão criando suas primeiras contas online. Mais de 80% dos jovens brasileiros entre 15 e 17 anos usam internet. Entre os 9 e os 17 anos, 90% possuem ao menos um perfil em rede social. Podemos constatar uma verdade: cada vez mais cedo a internet faz parte da vida dos nossos alunos. E de forma intensa.

Um outro levantamento, este feito pela Amdocs Brasil, perguntou a adolescentes brasileiros se eles gostariam de ter um dispositivo com acesso à internet acoplado ao corpo. 88% deles responderam que sim.

É fato que a era digital mudou a forma de agir, de se relacionar e também de aprender. Estamos diante de uma sociedade marcadamente virtual e compartilhada. O limite entre o real e o imaginário fica à mercê da indústria que determina um comportamento segmentado e unilateral.

A escola precisa se valer deste novo recurso e ensinar os alunos a lidar com esta ferramenta tão poderosa.

Novas tecnologias possibilitam novas metodologias

Faz-se necessário repensar os modelos tradicionais de ensino para reflexões acerca do exercício da cidadania digital: novos valores, novas posturas e novas metodologias.

Nessa perspectiva, a inclusão de recursos digitais na escola possibilita a comunicação entre alunos e professores, potencializa o interesse e motiva os alunos para a aprendizagem. A proposta favorece uma educação baseada na aprendizagem significativa, isto é, uma educação em que os alunos constroem significados atribuindo sentido àquilo que aprendem e aplicam esse conhecimento no cotidiano.

Desta forma o ensino passa a ter o foco na aprendizagem, com ênfase na formação de competências múltiplas, no empreendedorismo, na solução de problemas, no trabalho em equipe de modo colaborativo.

Rompem-se as barreiras físicas e fomentam-se os ambientes colaborativos virtuais. E há ainda a possibilidade da interação com outras culturas, porque o mundo virtual não tem fronteiras.

Possibilidades de uso das redes sociais e dos ambientes virtuais

São muitas as alternativas de trabalho com a tecnologia.  Podemos usar uma multiplicidade de recursos e atuar de forma interdisciplinar. Abaixo sinalizamos algumas possibilidades a serem adotadas no cotidiano.

Sabemos que toda informação, para fazer parte de estudos acadêmicos e ampliar o conhecimento das pessoas, deve ter credibilidade e veracidade. Muitas são as fontes que o meio virtual oferece, mas nem todas são confiáveis. Uma estratégia eficiente pode ser orientar os alunos a procurar por especialistas que tenham perfil na rede e que possam ajuda-los a tirar algumas dúvidas ou fornecer entrevistas e informações confiáveis.

Abandone a Wikipédia como fonte, pois Wikis são construídos de forma colaborativa, sem aferição de veracidade e já foram identificadas muitas incongruências e inverdades nesta fonte de consulta.

Outra proposta interessante é orientar os alunos a entrar em contato com parentes distantes para fazer pesquisas genealógicas ou com personalidades locais para discutir matérias tratadas em sala de aula.

A criação de clubes do livro online pode também aguçar o gosto pela leitura. Troca de livros, postagem de sinopses, blogs com indicações de obras e críticas temáticas também podem trazer bons resultados.

Para o ensino de novos idiomas, a rede oferece múltiplas possibilidades. Conecte seus alunos com pessoas de todo mundo. Se você é professor de inglês ou espanhol e possui amigos do exterior que falam essas línguas, organize bate papos para que os estudantes possam praticar os idiomas.

Para aqueles alunos que não gostam muito de falar ou de expor suas opiniões em público, você pode organizar atividades de participação online onde eles poderão participar escrevendo sua opinião ou conhecimentos, o que ajudará você na hora de avaliar a participação deles.

Outra novidade que está sendo muito utilizada é a Gamificação (ou, em inglês, gamification) que é hoje uma das apostas da educação no século XXI. O termo complicado significa simplesmente usar elementos dos jogos de forma a engajar pessoas para atingir um objetivo. A gamificação torna as aulas mais atraentes e dialoga melhor com o universo dos alunos. Pode-se oferecer prêmios para mudança de fases, criar avatares e cenários, distribuir pontos e lançar desafios.

Na educação, o potencial da gamificação é imenso: ela funciona para despertar interesse, aumentar a participação, desenvolver criatividade e autonomia, promover diálogo e resolver situações-problema.

Sabemos da importância do ensino presencial e de algumas habilidades que este ambiente proporcionará aos alunos. Por isso mesmo propomos um ensino híbrido, onde se pratique tanto o ensino no ambiente virtual quanto no ambiente presencial.

Novas metodologias pedem novos modelos de avaliação

A avaliação escolar sempre foi um desafio. Muitos educadores ainda veem a avaliação como final da etapa de ensino, mas, na verdade, a avaliação é um processo e não um momento estanque em si mesmo.

E ainda, instrumentos de avaliação não são necessariamente avaliação. É preciso avaliar sempre, acompanhar, monitorar, mas o que realmente vai garantir a aprendizagem são as intervenções que fazemos frente ao desempenho do aluno. A avaliação serve para retroalimentar o planejamento. Ao avaliar, temos a clareza daquilo que foi aprendido pelo aluno e daquilo que ainda precisa ser consolidado.

Diante das novas TIC`S, faz-se necessário incorporar avaliações que dialoguem com o ambiente virtual. Ambientes colaborativos virtuais de aprendizagem, avaliações online, apresentações em vídeo, podcasts e muitas outras possibilidades.

Uma coisa importante a ser observada é a necessidade de avaliar também individualmente o aluno, pois precisamos garantir que as habilidades mínimas exigidas foram alcançadas.

A formação continuada dos educadores

Se o educador desenvolve bem o seu papel de mediador do conhecimento possibilitando essas oportunidades de interlocução com as mídias, os alunos irão naturalmente desenvolver habilidades e competências de criatividade e inovação com o uso de dispositivos móveis. Cabe ao educador incentivá-los quanto ao uso, como uma ferramenta de aprendizagem.

Projetos desenvolvidos por meio de blogs, aulas interativas, explicação de fenômenos científicos usando animação em stop-motion, criação de entrevistas, programas de rádio, uso de portais e outras mídias alternativas incentivam a maior participação dos alunos nas atividades escolares e proporcionam benefícios na aprendizagem. Usar dispositivos móveis, como tablets, celulares e notebooks também constituem em boas estratégias de diversificação das metodologias de ensino.

Há vários recursos de aprendizagem que o professor pode desenvolver.

Porém, vale aqui um alerta importante: De nada adianta tecnologias novas se as práticas continuam velhas. 

Vejo muitos professores valendo-se das mídias e recursos digitais, mas com postura de aula tradicional. Os arquivos funcionam apenas como PDF, ou seja, é como se digitalizássemos os livros e, ao invés de papel, usássemos a lousa digital ou os dispositivos móveis.

O professor só dará conta desta nova forma de ensinar se for oferecido a ele formação continuada. Ele precisa apropriar-se desta nova experiência, mesmo porque ele não é um nativo digital. Muitos deles não se sentem seguros e nem confortáveis diante do uso da tecnologia. Se não houver investimento na formação deles, estaremos colocando em cheque todo o processo.

Criando regras para o convívio digital

Com o uso contínuo das redes virtuais, corre-se o risco de transigir algumas regras de boa convivência que não podemos deixar de salientar. Como estamos propondo que a escola seja incentivadora do uso da tecnologia, precisamos ser participantes também no trabalho de educação para a cidadania e boa convivência.

É necessário informar e educar os alunos sobre regras de convivência no meio virtual. Cuidados com a segurança também devem ser dialogados para evitar assédios, abusos, oferta de pornografia ou vicio nela, aliciamentos para o tráfico, para o terrorismo etc.

Muitas pessoas usam as redes sociais para descarregar, atenuar suas frustações ou aplacar seus medos na vida real. Diante do anonimato, as pessoas se trasvestem de “avatares” virtuais e atacam os outros, falam coisas que jamais falariam na vida real. Estas ofensas constantes são chamadas de cyberbulling.

Há práticas, das mais bizarras e inimagináveis possíveis: usar fotos de pessoas mortas para perfis falsos, ataque a imagem e índole de pessoas que já morreram, compartilhamento de fotos comprometedoras e íntimas na rede pública, disseminação de boatos e fofocas sobre colegas de escola, ataque indiscriminado à opinião das pessoas, apelidos e muitas outras coisas.

O fato é que a rede social tem seus benefícios, como a capilaridade, ou seja, seu alcance, mas pode ser uma verdadeira arma de humilhação, difamação da reputação e da imagem das pessoas, quando mal utilizada. É preciso dialogar com os alunos sobre isto e principalmente: é preciso envolver a família neste processo.

Promovendo a interação com a família

A criação de regras para um convívio digital é necessária e saudável. Sabe-se que o uso incondicional e sem limites em qualquer situação pode ser desastroso. Esta função extrapola os limites da escola. É fundamental envolver as famílias neste processo.

Segundo o sociólogo francês Pierre Bourdier, a socialização primária vem da família.

Entende-se por socialização primária o espaço onde a criança aprende e interioriza a linguagem, as regras básicas da sociedade, a moral e os modelos comportamentais do grupo a que se pertence. Ela tem um valor primordial para o indivíduo e deixa marcas muito profundas em toda a sua vida, já que é aí que se constrói o primeiro mundo dele.

Compartilhe com as famílias as iniciativas, Projetos e informações sobre o uso da tecnologia e das redes sociais, reforçando ainda mais a relação e responsabilidade delas com a educação dos filhos.

Barreiras a serem vencidas:

A iniciativa de usar recursos dos meios digitais na educação também tem seus entraves. Um deles é a dificuldade que o professor tem, tanto em sua atualização quanto na disponibilidade de tempo para interagir com estas novas mídias.

Atenta a isto, as escolas devem formatar programas de formação continuada para os professores e gestores e também dialogar com alunos e pais sobre essa novidade.

São muitas as possibilidades, mas temos que superar as barreiras.

O mais difícil é abrir a mente para novos rumos, desconstruir práticas e abrir mão de convicções. Isso sim é a maior barreira para a mudança na Educação.

Bibliografia

BOY, Priscila Pereira. Inquietações e desafios da escola. WAK editora,2010

Machado, Nilson José.  Epistemologia e Didática: as concepções de conhecimento e inteligência e a prática docente. São Paulo: Cortez, 1995.

Perrenoud, Philippe.  Avaliação: da excelência à regulação das aprendizagens - entre duas lógicas.  Porto Alegre: Artmed, 1999.

Sacristán, J. G. e Pérez Gómez, A. I.  Compreender o ensino..

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